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Para Refletir...

"A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido. Não na vitória propriamente dita." Mahatma Gandhi

 
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Patrono do Centro
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O recém vindo era holandês, mas falava muito bem o português. Depois de dois ou três sermões preparatórios, foi lançado o desafio. Convém lembrar que a frequência aos sermões aumentara, como também a assistência do centro, é que já não se podia esperar acompanhar os lances oratórios por informações de terceiros, eivadas de proselitismo e os próprios partidários de um e de outro, passaram a frequentar os dois locais, a reza com sermão logo após a Ave Maria (18 horas) e a sessão espírita (20 horas). Ovia-se a pergunta e a resposta, a invetiva e os contra argumentos no mesmo dia, caminhando apenas cerca de mil metros.

Encontrara todas as igrejas em ruínas, algumas parcialmente desmoronadas. Dividia o padre João a jornada em sermões e sacramentos e pá de pedreiro iniciando a restauração de todos os templos a um só tempo. Obra de gigante que esse cura já velho não chegou a ver terminada. Empunhando numa das mãos o missal e na outra o "livro de ouro", sem auxiliares, pois era o único padre da freguezia, pastoreou muito tempo seus fiéis sem contestação. 

Um dia surgiu-lhe um adversário, porque o destino de todo D.Camilo é ter um Pepone pela proa. Este veio na pessoa de um baiano culto, professor de letras e eloqüente como soem ser os baianos, professor Leopoldo Machado. 

Cerimoniosamente, a princípio, um no púlpito, outro na tribuna, tomaram as posições e começou em Nova Iguaçu a luta entre igreja católica e espiritismo. São Pedro e Kardec. Daí por diante, disputariam, aquele as almas e este os espíritos. É claro que a população, como de uso, logo se viu em dois grupos, maior o do padre, mas, se menor o do professor era mais culto, seleto, chamado à religião de ciência.

Ambos citavam os evangelhos, encontrando testemunhos.

Os partidos da reencarnação, além do livro santo(A Bíblia), diziam-se baseados em Flamarion, Leon Denis, Williams CrooKes, Gabriel Delane, A. Conan Doyle. Leopoldo Machado fundou um colégio com o próprio nome. Padre João, fundou outro que entregou a freiras, hoje modelar, ainda existente, denominado Colégio Santo Antônio e uma obra de Caridade. O professor inicia a obra filantrópica Lar de Jesus, um primor de instituição caritativa, a qual posteriormente legaria todos os seus haveres e o próprio colégio.

João reconstrói a matriz de Santo Antônio de Jacutinga, o templo principal, Leopoldo ergue e inaugura, em sobradão, o Centro Espírita Fé ,Esperança e Caridade. O Espiritismo do orador baiano que a princípio pareceu ao sacerdote dos sem maior importância deitara raízes e o padre que nunca se preocupara em erradicar a macumba, o Candomblé, a Umbanda - crendice de pretos - via-se nessa altura com um antagonista perigoso e o que era pior alardeando lógica, doutrina e ciência, no mais escorreito português e afinada eleqüência.

Leopoldo era um batuta para se comunicar. Adversário sem dúvida para um padre Vieira. Enquanto o reverendo anamatizava com o assustador fogaréu das caldeiras de belzebú, àqueles que seguissem Rustaing, o professor descrevia aos incrédulos, as duríssimas provas de reencarnações obrigatoriamente sucessivas, para os que fechassem os olhos e os ouvidos à nova revelação.

Da rua Marechal Floriano Peixoto até o Centro Espírita, à rua Bernardino de Mello, ia-se a pé em dez minutos, atravessando a estrada de ferro Central do Brasil cancelada em frente ao bar Brasil, do Pascoal Testa, mas, o que o padre falava no púlpito chegava à tribuna do centro com a velocidade da luz , e vice-versa. A coisa em pouco tornou-se um diálogo e difícil de suportar para o padre, quando advertido sobre a excelente capacidade de comunicação do professor, sentiu um estalo e viu surgir a idéia luminosa e salvadora. Fazer vi a Nova Iguaçu um príncipe da palavra e dos mistérios canônicos para medir-se de público e arrazar com o perigoso adversário. Se pensou rápido executou ( com a anuência do bispado), fazendo aportar à terra um astro de oratória eclesiástica.

O recém vindo era holandês, mas falava muito bem o português. Depois de dois ou três sermões preparatórios, foi lançado o desafio. Convém lembrar que a frequência aos sermões aumentara, como também a assistência do centro, é que já não se podia esperar acompanhar os lances oratórios por informações de terceiros, eivadas de proselitismo e os próprios partidários de um e de outro, passaram a frequentar os dois locais, a reza com sermão logo após a Ave Maria (18 horas) e a sessão espírita (20 horas). Ovia-se a pergunta e a resposta, a invetiva e os contra argumentos no mesmo dia, caminhando apenas cerca de mil metros."

Havia gente já confusa, jantando mais cedo, para acender uma vela à Deus e outra ao diabo. Também a cousa já descambara para o terreno econômico, pois a maioria, querendo se situar bem na vida eterna passara a assinar e contribuir nas listas de reconstrução das igrejas e nas da caridade espírita. Já não se sabia mesmo quem fizera mais prosélitos e era melhor acolhido, se a figura humilde, ignorante, mas virtuosa do padre, ou com o brilho fulgurante da oratória, em português castiço, com bases modernas e científicas do professor. Argumentavam confundindo todo o mundo os formidáveis pregadores.

A igreja sempre teve imprensa própria, Guttenberg imprimiu primeiro a bíblia católica e houve farta distribuição de panfletos e jornais, santinhos, aos fiéis na Igreja, mas o mestre espírita, além do dom da palavra tinha o da escrita e produziu obra de folego, versos, contos, romances e peças teatrais que encenava. Lançado o desafio, o espiritista não pegou logo a luva. Oito dias de suspensa, enquanto os mais desencontrados boatos eram espalhados e a guerra de nervos terminou no entretanto com a aceitação e a escolha dos padrinhos (responsáveis pelo boa ordem) de lado a lado e, o que era mais importante, a escolha do campo da luta. O local da batalha veio a ser, depois de muita querela, em ponto equidistante da Igreja ao Centro. Foi escolhido o salão do S. C. Filhos de Iguaçu, exatamente no meio do caminho que percorreriam desafiante e desafiado, um sobrado de esquina das ruas Getúlio Vargas e Bernardino de Melo. A expectativa tornou o ar pesado, a própria política foi esquecida, sendo Getúlio de Moura e Mário Guimarães relegados ao segundo plano, como se não existissem mais os irreconciliáveis partidos Progressista e Radical. Novenas foram rezadas às pressas em intenção do padre, enquanto no outro arraial pedia-se a proteção e assistência dos "espíritos de luz". Padre João um belo dia teve que com seus mais eficientes exorcismos retirar dos degraus da matriz um caprichado "ebó" com que a umbanda local se permitiu contribuir. A cidade parou na previsão anciosa. O padre holandês era bom orador, bom mesmo e vinha com a experiência de outros prelios, e Leopoldo, baiano astuto, culto e eloquente não valia menos.

VEJA HOMENAGEM AOS 30 ANOS DE FALECIMENTO DO PROFESSOR LEOPOLDO EM 22/08/1987

O DIA "D"

Chegou o dia "D", estando presentes no S.C. Iguaçu, tanto a nata como a pérrapagem da terra. O padre chegou primeiro, claro,loiro, alto, gordo, entrou e se instalou na cadeira de braços ao lado de Sebastião Herculano de Mattos, que presidiria os trabalhos. Leopoldo, pequeno, magro, cabeça grande, moreno, cabeludo, entrou logo depois e foi ocupar a cadeira à esquerda da presidência. Estava gripado, um enorme cachecol de lã quadriculada envolvia-lhe o pescoço. Sebastião Herculano apresentou os contendores, salientando-lhes os títulos e explicando o motivo da reunião, frizando bem, repetidas vezes, que num país leigo a discussão de tão transcendente assunto deveria correr nos planos superiores da tolerância e que havia um denominador comum, pois, no fundo, todos os presentes eram cristãos.