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Para Refletir...

"A questão mais aflitiva para o espírito no Além é a consciência do tempo perdido." - Chico Xavier

 
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Perspicaz, culto, Mattos fora escolhido para presidir por causa de sua prática de assembleas, era vereador, presidente da Associação de Agricultores e já, muitas vezes, defendera réus na tribuna do juri (que na época era permitido a não formados em direito), mas sobretudo por ser o farmacêutico, profissão que distingue a personagem multifacetado de grande atuação e muito respeitado nas antigas vilas.

Apresentados os gladiadores, sorridentes, amáveis, via-se contudo a assustadora tensão da assistência. Não se misturaram católicos e espíritas, separaram-se, embora o salão comportasse apertadamente e o todo estivesse aglutinado.

Corria no ar um zumzum resmungado, quase rosnante de mau prenuncio que só cessou quando tomou a palavra o padre. Ouviu-se uma magnífica peça oratória. Falou mais a Maurício de Lacerda que a Vieira. Após os cumprimentos ás personagens presentes, especialmente ás damas, tomou o fio da meada com Adão e Eva: Inúmeras foram as citações a partir da era de Cristo, nos 1900 anos da igreja. Atacou de rijo as manifestações espíritas chamando as de farsas e auto sugestão. Chamou a depor todos os apóstolos e os grandes filósofos da igreja. A Companhia de Jesus (sem a Inquisição) esteve dessa vez no banco das testemunhas.

Especialmente bombardeou a reincarnação mostrando com argumentos irretoquíveis que após a morte a alma não tem outra opção senão o inferno, o purgatório e para poucos bem aventurados, o céu.

Foi mordaz, satírico, apostrofando aqueles que não lhe fizessem o catecismo. Falou uma hora e meia olhando de vem em quando para o Padre João que com gestos animava os aplausos da assistência nas passagens mais vigorosamente arrazoadas do discurso.

Padre João, os olhos encadeados no Holandes não dava conta de que seu exemplo de vida desprendida e incançável energia para o trabalho, representava alicerce maior para a Igreja que a eloquente elegância do orador, a reunir fiéis. A metade da assistência saudou de pé as últimas palavras de cura, enquanto a outra metade se abstinha.

Todos suavam, o padre já bebera cerca de dez copos de água quando foi dada a palavra ao professor Leopoldo que se levantou e por ser pequena estatura fê-lo sobre um banquete para ficar mais alto.

Não tirou o cachecol e estava um pouco rouco. Recusou o copo de água que lhe foi oferecido, correu os olhos pela assistência, fez poucas saudações e após um "meus irmãos" produziu uma belíssima oração.

Embora rouco se expressava com nitidez, o sotaque baiano, acentuado e abrindo as vogais, permitia-lhe ser bem ouvido e melhor entendido. Suas citações antecederam ao nascimento de cristo pelo menos três mil anos. As religiões dos Sesmerianos, Babilónicos, Cretenses, Persas, Egípcios, Gregos, desfilaram. A Tora dos judeus, o velho testamento foi citado longamente com Abraão, Noé, Moisés e todos os seus profetas. Os essenios e (ainda não se tinha notícia dos papirus do mar morto) testemunharam. Do novo testamento extraiu abundante comprovação para a existência do espírito e da reincarnação.

Se Cristo perdeu suas atribuições divinas ganhou porém as glórias do espírito de maior luz do planeta. Não poupou a Igreja por suas lutas políticas para obter e manter pompas e proveitos materiais. A seguir mudou-se para o terreno da lógica e da matemática e provou aritmeticamente que a reincarnação não é só individual mas, também coletiva, em massa.

Estornou o verbo para a área científica e lá vieram Lavoisier, Laplace, Crooks e - finalmente Eistein depor perante a extasiada assistência as verdades do espiritismo. Nada ficou devendo ao padre, até superou-o pela graça da linguagem escorreita. Na verdade falou muito mais em menos tempo, usando da palavra apenas por uma hora.

Quando chegou ao "tenho dito" foi delirantemente aplaudido por aqueles que não bateram palmas para o sacerdote. Sentia-se na assembléia, desde logo, que fora brilhante o entrevero e que tivera a virtude de tornara os católicos mais católicos e os espíritas mais espíritas. Conversões, parece não houvera alguma.

Apesar do adentrado da hora o padre levantou-se para a réplica, que já era esperada, porque nessa época, a assistência da vila, sempre a mesma para tudo, estava habituada às sessões do Juri que duravam (falando a defesa e a acusação quantas vezes quisessem), três, quatro e mais horas, sem interrupção. A réplica do padre, porém, foi curta, forte, incisiva, quando disse:

- Meu caro professor, nós os católicos nos convertemos à sua dita verdade se o senhor fizer se materializar, aqui, agora, um espírito.

De imediato, Leopoldo se levantou e a tréplica foi lançada:

- Senhor padre, primeiro o senhor, nós os espíritas é que nos converteremos, se vossa reverência fizer, aqui, agora, um milagre.

A assistência, sob calor e tensão emocional pareceu explodir, tumultos começaram, quando o presidente, hábil e ligeiro deu a reunião por encerrada e algum diretor do clube mais interessado na integridade das cadeiras desligou o relógio da luz.