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Para Refletir...

"A paz em ti ajudará a produzir-se a paz no mundo." - Joanna de Ângelis

 

Homenagem ao Professor Leopoldo Machado

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MUITO OBRIGADO, MESTRE! MUITO OBRIGADO, MESMO!

Os anos passam e a gente, de carne e osso, mas também de coração e alma, não se desliga no tempo e no espaço, dos amigos queridos que já se foram deste mundo, iniciando novas e surpreendentes etapas de suas vidas sempre em evolução.

Parece que foi há pouco o ocorrido e, no entanto aqui nos encontramos reunidos, pessoas afins, lembranças e saudades muito vivas, presentes mesmo, em homenagem a memória de Leopoldo Machado Barbosa, que há precisamente 30 anos, por determinação do Alto, pôs um ponto final na sua brilhante trajetória terrena, despedindo-se de tudo, dos amigos e admiradores, deixando obras e exemplos de conduta edificante, para seguir adiante, no caminho que um dia nós todos seremos chamados a percorrer em busca da verdade, em busca da paz e amor em comunhão espiritual.

Leopoldo honrou sobremodo Nova Iguaçu e todos os iguaçuanos ao dividir com eles o grande coração de baiano. De baiano que se dizia de temperamento arredio e discreto, mas de fato batalhador, ardoroso leal e franco, escolhendo este pedaço de solo fluminense para fincar o pé, aqui vivendo e labutando, aqui vivendo e amando a terra que passou a considerar sua também, querendo vê-la tão bela, tão rica e grandiosa como se fosse seu próprio berço natal.

Homem de princípios morais inalteráveis, de caráter firme e personalidade inconfundível, superou muitos obstáculos desde o nascimento na localidade de Cepa Forte, em condições humildes, quase sem recursos para sobreviver dignamente, mas aos poucos foi conquistando aqui e ali, com esforço e determinação, com fé e esperança porque acreditava em sua capacidade de trabalho, títulos e mais títulos que o notabilizaram como jornalista , escritor e poeta, biógrafo, teatrólogo, educador... No jornal, no rádio e na tribuna, polemista que era por índole, defendeu por aia fora com entusiasmo e brilhou, pregou e propagou com resultados magníficos a Doutrina codificada por Allan Kardec, idealizou e animou esplendidamente o movimento das Mocidades Espíritas e muitas obras sociais.

Mas falemos agora somente de Leopoldo, o educador. Ligado de corpo e alma à Nova Iguaçu, cidade que ele escolheu de coração para concluir com admiração geral, a etapa derradeira de sua vida grandiosa.

Há uns 70 anos, quando dirigia o Colégio Nacional, do Almirante Paim Pamplona, localizado no Méier, Leopoldo conheceu ali o Correio da Lavoura. É que o Colégio Nacional se incluía entre os primeiros assinantes do semanário de Silvino de Azeredo.

Como chegou a confessar, Leopoldo não era e nunca foi lavoureiro, e quis saber, ao se encontrar pela primeira vez com o velho jornalista, as razões que o levaram a crismar assim o seu jornal, sendo a lavoura a maior fonte de alimentação do homem. Achava original e estava curioso.

Silvino prontamente lhe respondeu:

- Eu posso ser político, mas o meu jornal não o é. Nunca o será. Fundei-o para defender três coisas: saúde do povo, instrução e produção. Um povo sem saúde não pode se instruir nem produzir.

O rasgo filosófico de Silvino impressionou o Prof. Leopoldo, que ainda não sonhava de um dia vir morar nesta cidade e fundar o seu Ginásio.

Tempos depois indo à Paraíba do Sul para instalar a sucursal do Colégio Nacional, não se deu bem naquela cidade fluminense, mas teve a feliz oportunidade de se avistar com o Cel. Alberto Melo, de família das mais tradicionais de Nova Iguaçu. Falou-lhe então o respeitável político, que já o conhecia de nome, pois três de seus filhos tinham sidos alunos de Leopoldo:

- Por que não vai abrir um colégio em Nova Iguaçu?
Eu vou ser prefeito daquele Município. Será a primeira simpatia que terá ali.

Leopoldo sorriu e aceitou a sugestão. Veio para Nova Iguaçu e fundou o Ginásio Leopoldo, hoje Colégio. Um dos nossos educandários particulares mais conceituados, superando até os demais, porque foi o primeiro a implantar aqui o ensino organizado e oficial.

Aqui chegando de pouco, Leopoldo teve ensejo de visitar o Prof. Pariz no seu colégio, fundado havia mais de meio século. Apresentado ao velho mestre pelo dentista Francisco Pimenta, Leopoldo não ouviu dele palavras de incentivo. Pelo contrário, foram palavras desanimadoras, quando o homenzinho de cavanhaque soube de suas intenções.

- Se o senhor é candidato a santo e está disposto a colecionar desilusões, ingratidões e decepções... eu lhe vendo meu colégio, Aqui na terra e na profissão, só tenho encontrado espinhos...

Observador perspicaz, acostumado a não deixar nada sem uma resposta inteligente, Leopoldo falou ao mestre:

- Entretanto, ao entrar em sua casa, encontrei uma pétala de rosa, sem espinho, pregadas à sua porta...

- Leopoldo se referia a uma placa de bronze que se achava na fachada do prédio da Rua Bernardino de Melo, inaugurada por iniciativa de uma comissão de alunos, ex-alunos e amigos e admiradores, a 29 de setembro de 1925, data do aniversário natalício do respeitável educador, com os seguintes dizeres:

“12 de maio – 1875 – 1925. Placa comemorativa à passagem do Jubileu profissional do egrégio Prof. Augusto Monteiro Pariz. – Homenagem do povo iguaçuano.”

Hoje se compreende a atitude do Prof. Pariz, em face de sua idade avançada , do cansaço natural da profissão, ou de um certo temor de novo e forte concorrente...

Já o reencontro, aqui na cidade, com Silvino de Azeredo em nada se comparou com o que tivera com o Prof. Pariz. O jornalista, também já encanecido, abriu os braços, o coração pulsando de alegria, ao professor recém-chegado, dando-lhe todo o apoio para que concretizasse os seus planos de dar a Nova Iguaçu um colégio padrão. E fiel à sua palavra, manteve esse apoio irrestrito, pessoalmente e através do seu jornal, até o fim de seus dias de luta pelos ideais maiores que vinha sustentando a duras penas em face da incompreensão de muitos: saúde do povo, instrução e produção.

A religião não os separou. Silvino era católico e Leopoldo, espírita. Não separou nem separa as pessoas, independentes, altaneiras de visão clara e pensamentos nobres. Elas sempre se entendem e se harmonizam no sentido do bem comum, impulsionados por ideais alevantados.

Aconteceu assim também com o Dr. Humberto Gentil Baroni, que parecia kardecista, sendo ao mesmo tempo médico e amigo dedicado do Padre João, médico, amigo e admirador do Prof. Leopoldo até o fim, como um anjo da guarda.

Aconteceu assim também entre o Prof. Leopoldo e o Vigário João Müsch, em campos opostos, mas tratando-se naturalmente com todo o respeito e consideração.

Está registrado em livro. Padre João, novo na cidade e na igreja, sentiu logo que o espiritismo vinha ganhando terreno cada vez mais e o responsável, pensava, era o Prof. Leopoldo em seu Ginásio, já com uma freqüência de mais de duas centenas de alunos, que estariam recebendo conhecimentos da Doutrina Espírita.

E tentou então um golpe arrojado: obter licença, por intermédio de Vitorino Cardoso de Matos, para dar aula de catecismo no Ginásio Leopoldo.

O mesmo baiano, sabedor da intranqüilidade do padre e de suas intenções , não se deu por achado, e teria lhe mandato a resposta adequada:

- Está bem, Padre. Façamos um trato: o senhor ensina em meu Ginásio o catecismo e eu o espiritismo em sua igreja, concorda?

Evidentemente que não houve concordância, mas continuaram a se respeitar, como dois combatentes leais e dignos.

Padre João, diante do inesperado, e para compensar no bom sentido de oposição da fé católica a fé espírita construiu o Ginásio Santo Antônio, mas um fato era verdadeiro: a expansão do espiritismo não tinha seu quartel-general no Ginásio Leopoldo, porque seu diretor jamais pretendeu ensinar a Doutrina de Kardec aos alunos ali matriculados.

Sem dúvida que Leopoldo Machado dedicava especial carinho a Nova Iguaçu, amando-a de verdade.

Ele que pertencia, sempre convidado por amigos, a diversos grupos intelectuais, mas nunca tomou posse em nenhum deles, exultou com a fundação da Arcádia Iguaçuana de Letras, em 1955, passando a ser um de seus maiores incentivadores, e nela finalmente chegou a tomar posse, porque, tendo despertado Nova Iguaçu para o ensino sério observado em seu Ginásio, assistindo-a humanitariamente com a construção do Albergue Noturno e cooperando na sua assistência aos necessitados, além de lutar para que criancinhas abandonadas fossem amparadas neste Lar de Jesus,ainda reconstruindo o Fé, Esperança e Caridade e fundando ali a escola primária João Batista, chegara à conclusão que não poderia deixar de cooperar e contribuir, na medida de suas forças e experiência, para o progresso moral, artístico e intelectual de Nova Iguaçu, que naquela altura já o conquistara para sempre.

A mim, por exemplo, fazia freqüentes recomendações, escrevia bilhetes, telefonava, lembrando providências necessárias até um belo soneto de exaltação a Nova Iguaçu que, depois da Arcádia, esperava que lhe dessem também Teatro Moderno e Biblioteca Pública, seus três maiores ideais.

No dia da instalação solene da Arcádia, lá estava ele entre seus pares, solidário e entusiasta como sempre apesar de não se sentir bem de saúde. Na presidência, especialmente convidado, o imortal Pedro Calmon, seu conterrâneo ilustre, encontro que lhe fez sentir-se mais satisfeito ainda, além das peças oratórias que ouviu na ocasião.

Ao lhe colocar como aos demais, o colar simbólico da entidade no paletó, a platéia aplaudiu calorosamente, levando Pedro Calmon a segredar-lhe ao ouvido:

- Parece que o senhor é o árcade mais cotado da assistência.

E Leopoldo, modesto, mas sincero:

Não. É que a assistência não está acostumada a ver-me em festas e recepções, além de saber de nosso estado de saúde.

Quando do desenlace de Leopoldo Machado aqui no Lar de Jesus, parece que a chama da vida custou a se desprender do corpo, segundo o autor de “Os Últimos Instantes”, ante a preocupação de deixar tantas criancinhas sem o seu afeto constante, sem o seu carinho e amor de pai. Talvez quisesse continuar mais um pouco a encaminha-las no caminho do bem.

Mas chegou a hora, era preciso. Veio o silencia só emoção. Aqui, as homenagens de gratidão das crianças, encolhidas e tristes, tão simples e puras em suas manifestações.

No Colégio Leopoldo e depois no Fé, Esperança e Caridade, o preito da saudade de familiares, de alunos e ex-alunos, de admiradores e irmãos de fé. Preces comoventes do radialista Alziro Zarur, legionário nº 1 ao legionário nº 2 na LBV; de Newton Gonçalves de Barros, de Valdemiro de Faria Pereira, de José Antônio Marques e vovô Vitorino Elói dos Santos.

No acompanhamento em longo trajeto, sentidas homenagens de escolas públicas e particulares de autoridades do povo, do comércio cerrando respeitosamente as portas à passagem do corpo.

E no campo-santo, o adeus de despedida de irmãos e amigos do gigante que partia, uma vez terminadas suas obras e sua missão. Adeus de Francisco Manoel Brandão pela Arcádia , de Amadeu dos Santos, Atlas de Castro Rute Santana pela Casa de Lázaro, Legionária Ercília Valverde, Albertina Trigueiro, José Moreira Neto, e representantes de Juiz de Fora, Volta Redonda e São Gonçalo. Finalmente, a Canção da Alegria, a Ave Maria, o toque de silêncio.

Nova Iguaçu, que há muitos anos recebera com simpatia o Prof. Leopoldo, dele se despedia com profunda emoção, como que a balbuciar:

- Muito obrigado, Mestre. O Senhor, com o brilho de sua inteligência, com o trabalho honrado e a elevação de seu espírito, só engrandeceu e dignificou esta terra e sua gente. Muito obrigado mesmo!

* Palestra proferida por Luiz Martins de Azeredo, em 22 de agosto de 1987, pela lembrança dos 30 anos de falecimento do Professor Leopoldo Machado


Fonte: http://www.colegioleopoldo.org.br/homenagem.htm


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