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Para Refletir...

"A incompreensão dói. Contudo, oferece-nos excelente oportunidade de compreender. O desespero destrói. Diante dele, porém, encontramos ensejo de cultivar a serenidade." - André Luiz

 

Revelação

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Devemos agora fazer uma pausa e refletir sobre a natureza dessa experiência. Nós não mais descartamos automaticamente uma visão desse tipo como sendo histeria ou má-fé. Em todas as culturas, a inspiração foi sempre vista como uma forma de possessão benigna, em termos tanto artísticos como religiosos. O poema ou mensagem parece falar ao seu criador com força imperativa e parece se declarar. Freqüentemente, pensadores verdadeiramente criativos também se sentem inspirados desse modo: é como se, de alguma forma, houvessem tocado ou descoberto uma realidade incriada dotada de existência independente. O mais famoso caso é de Arquimedes, que pulou de sua banheira quando descobriu seu famoso princípio gritando “Eureka! Encontrei!” Achando-se relaxado, ele se pôs num estado de espírito receptivo, e a resposta pareceu vir espontaneamente, como se tivesse uma existência independente da própria mente. Todo pensamento verdadeiramente criativo é, em certo sentido, intuitivo; ele exige um mergulho no obscuro mundo da realidade incriada. Vista dessa forma, a intuição não abdica da razão, mas antes a acelera, encapsula-a num instante, de modo que a solução vem sem as trabalhosas preliminares lógicas de costume. Um gênio criativo retorna dessa terra não descoberta como um dos heróis da Antigüidade, que tomara à força algo de volta dos deuses e o entregou à humanidade. Talvez seja possível pensar na experiência religiosa de um modo similar.

O poeta que “escuta” um poema que lhe parece uma realidade externa está, claro, escutando seu inconsciente. Ele se torna o portador de uma mensagem ou dádiva daquilo que se chamou musas ou deuses. Numa pequena sociedade como Meca, o inconsciente das pessoas tinha muito em comum. Falando em termos estritamente seculares, Maomé havia alcançado o mais profundo nível do problema com que seus contemporâneos se deparavam e lhes trouxe algo que poucos deles estavam prontos para ouvir. Veremos que, conforme ia trazendo à luz o Corão, versículo por versículo, sura por sura, e o recitava a seu povo, muitos deles o reconheceram em um nível profundo. Ele foi capaz de sobrelevar seus preconceitos, inquietudes e objeções ideológicas e propor uma solução social inventiva e espiritual em que ninguém antes havia pensado, mas que respondia a seus desejos e aspirações mais profundos. Em cada religião, a idéia de Deus ou da Realidade Última é condicionada culturalmente. Ao que parece, os árabes no Hedjaz estavam à procura de uma solução religiosa que fosse adequada às suas próprias necessidades. Eles não queriam, por exemplo, a idéia cristã de Deus, marcada pela filosofia e pelos ideais racionalistas da Grécia antiga. Maomé instintivamente retornara ao cerne da experiência religiosa dos profetas hebreus, mais adequada ao povo do Oriente Médio. É tentador pensar na popularidade do islã entre os povos da Síria, da Mesopotâmia, do Irã e da África do Norte como rejeição de uma noção de Deus inspirada nos gregos e um retorno a uma visão semítica.

Mas Maomé não fazia idéia de que estava fundando uma nova religião mundial. Essa era para ser uma religião dos árabes, que pareciam ter sido excluídos do plano divino. Deus enviara aos judeus e cristãos uma Escritura – no Corão eles são chamados ahl al-kitab, os Povos do Livro – mas não se revelara aos árabes. A revelação que Maomé começara a recitar no monte Hira, sob inspiração divina, era uma qu’ran [recitação] árabe. Era uma mensagem que respondia às mais profundas necessidades dos árabes: Maomé conseguira de algum modo chegar a um novo nível de consciência, diagnosticando o que havia de errado em sua sociedade e dando pouco a pouco aos árabes sua própria solução.

Muitas vezes usamos o termo “revelação” para descrever um pensamento ou visão inteiramente original. Mas a etimologia do termo nos mostra que se trata de algo que foi “desvelado”, “descoberto”. Por natureza, nenhuma visão ou conceito religioso pode ser original, uma vez que intenta chamar a atenção par uma realidade fundamental e preexistente. Maomé compreendeu e expressou essa verdade de forma mais clara que muitos outros líderes religiosos. Não há nada de novo na revelação do monte Hira. É simplesmente a antiga religião de Deus, que havia sido repetidamente revelada e que fora confiada a Maomé para que ele a levasse aos árabes. A religião de al-Lhah que Maomé dentro em pouco começaria a pregar em Meca não tivera início no monte Hira, e sim no primeiro dia da Criação. Deus fez de Adão seu kalipha ou vice-regente na terra, após o que enviou profeta atrás de profeta a todos os povos da Terra. A mensagem fora sempre a mesma, de modo que todas as religiões são essencialmente uma. O Corão nunca declarou cancelar as revelações anteriores, mas, em princípio, um culto, uma tradição, uma Escritura eram tão bons quanto outro. O que importa é a qualidade da submissão do indivíduo a Deus, e não uma expressão humana de sua vontade. As pessoas não têm por que “desejar outra religião que não seja a de Deus”. Todos os profetas haviam confirmado e continuado a progressiva revelação de Deus. Assim, ao se referir à crença de que Jesus havia profetizado a vinda do Paráclito (termo que foi, com vimos, traduzido por alguns árabes como “Ahmad”, uma variação do nome Muhammad), o Corão diz: Jesus, o filho de Maria, disse: “Ó filhos de Israel, sou o Mensageiro que Deus enviou. Corroboro tudo que está na Torá e anuncio a chegada de um Mensageiro que virá depois de mim, chamado Ahmad”. A única diferença da revelação de Maomé era o fato de, pela primeira vez, Deus haver enviado aos coraixitas um mensageiro e uma Escritura em sua própria língua.

Há, portanto, uma atitude despreocupada com relação às formas históricas da revelação. É bom enfatizar esse ponto, pois tolerância não é uma qualidade que hoje os ocidentais costumam associar ao islã. Mas, como apontam os próximos capítulos, a intolerância do islã não surge do mesmo tipo de conflitos doutrinários que dividiram os cristãos, e sim de fontes completamente diferentes. Após a morte de Maomé, nunca se exigiu que judeus e cristãos se convertessem ao islã, e lhes era dada garantia de culto dentro do império islâmico. Mais tarde, zoroastristas, hindus, budistas e sikhs foram todos incluídos entre os Povos do Livro. Para o islã nunca foi um problema coexistir com povos praticantes de outras religiões. O império islâmico serviu de morada a judeus e cristãos durante séculos; mas a Europa ocidental achou praticamente impossível tolerar a presença de judeus e muçulmanos em território cristão.

A revelação no monte Hira em 610 foi obviamente um evento importante na história do islã, mas foi apenas o começo. O milagre do Corão, segundo muitos muçulmanos hoje em dia, não é a forma de sua revelação original a Maomé no monte Hira, em Meca e, mais tarde, em Medina, e sim sua contínua habilidade de dar a milhões de homens e mulheres em todo o mundo fé em um sentido e valor últimos da vida. A religião islâmica vem tendo de ser continuamente inventiva e criativa em sua aplicação da visão original a um mundo em constante mudança: como qualquer outra fé, ela tem de responder à modernidade.

(Extraído do livro “Maomé – uma Biografia do Profeta”, de Karen Armstrong, p.100 a 102 - O nome deste artigo é o Título do capítulo)

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