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Para Refletir...

"A obra prossegue com o amparo divino. Nem desânimo, nem pressa, equilíbrio." - Bezerra de Menezes

 

Matéria e Espírito

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Já é tempo dos homens que se dizem religiosos preocuparem-se menos com o chamado materialismo. Este é fruto da ciência do século XIX, cujos pressupostos materialistas vêm sendo desmentidos, não pela religião, mas pela física do século XX. Segundo a física quântica, a matéria não tem a solidez que os nossos sentidos, limitados, lhe emprestam (Maya, diriam os hindus). Não passa de energia concentrada, segundo Einstein. O segundo princípio da termodinâmica indica que o universo material caminha para a morte, devido ao crescimento da entropia universal. A matéria há muito deixou de ser o “tijolo básico” com que a física clássica pretendia explicar o surgimento da vida e da consciência, e o materialismo dialético reconstruir a sociedade. O princípio organizador da matéria se encontra além dela. Podem chamá-lo de espírito, se quiserem.

O próprio progresso da ciência mostrou que inexiste o inanimado. Tudo no universo é fluxo de energia. Numa simples pedra, constituída de minerais, existe a força nuclear dos prótons e nêutrons, ao redor dos quais giram elétrons, fora outras tantas partículas subatômicas. Sua estrutura atômica permite que reaja com outros elementos sólidos, líquidos e gasosos, além de sofrer a ação da luz e outras radiações. Com isto, modifica-se inexoravelmente ao longo do tempo. Nada é imutável e permanente, garante-nos a lei de Lavoisier (Ou anicca, a impermanência de todas as coisas, dos budistas). Portanto, é melhor ir procurando outra explicação para a vida. Antes de mais nada, a vida é para ser vivida.

Teilhard de Chardin falou de uma “contracorrente espiritual” para explicar o surgimento e a evolução da vida e da consciência no mundo, em contraposição a uma matéria que, tomada em si mesma, é falha e nada explica. É claro que, apesar disto, ela tem uma nobre finalidade. Ao final de cada dia da Criação, diz o Gênesis: “... e Deus viu que era bom”. A matéria e a energia constituem o arcabouço da vida, o útero cósmico, em que Deus manifesta a sua glória (Shekinah). Assim, o tecido da vida é o resultado da trama de dois fios: um receptáculo material e um agente espiritual (Prakiti/Purusha, segundo os hindus; Yin/Yang, segundo os taoístas). A vida é una. Portanto, é falso ver espírito e matéria como coisas separadas e mesmo opostas. Um não existe sem o outro. Mas para compreender essa nova cosmovisão, que já fazia parte de antigas tradições, temos de abandonar as fórmulas caducas da velha ciência e da velha religião.

Da mesma forma que não podemos explicar a origem da vida no universo só por um de seus pólos – yin, a matéria, seu aspecto passivo – também não podemos reduzir a explicação para a vida ao outro polo –o yang, seu princípio ativo ou espiritual. Tudo no universo não passa de uma trama desses dois princípios. Assim, não faz sentido falar de um Criador que é “puro espírito”, como no velho paradigma, identificando-o com um dos pólos em detrimento do outro. Insinuar que Deus nada tem a ver com a matéria (ou até mesmo que a matéria é coisa do diabo) é, no fundo, o que ficou conhecido por maniqueísmo e é incompatível com o próprio mistério da Encarnação dos cristãos. Trata-se, portanto, de uma tese contraditória do velho paradigma em teologia, que nunca poderia ter sido formulada nesses termos.

Na realidade, trata-se de uma brutal confusão entre os dois aspectos da Divindade: o imanente (ou manifesto) e o transcendente (ou imanifesto). Na condição de Absoluto, Deus transcende tanto a matéria quanto o espírito. É o Deus recôndito, do qual nada se pode falar. O Ein Sof da cabala, o Shunyata dos budistas. Só pode ser percebido em total silêncio, que é meditação. Mas, enquanto Criador, Deus é pura ação e traz o mundo à existência. A vida é resultado de sua relação com o Outro, no qual Deus busca se conhecer. “O homem só se conhece na relação”, dizia Krishnamurti. Com Deus não é diferente. É nesse sentido que somos imagem e semelhança de Deus.

 

 

 

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